As manchetes dos jornais de referência ecoam nesta quinta-feira uma projeção que, se a princípio parece mero exercício técnico, possui densas implicações políticas: o cenário fiscal traçado pela equipe econômica de Lula admite que a dívida bruta do governo geral atinja a marca de 86% do PIB até 2027, com previsão de superávit primário efetivo de apenas R$ 8 bilhões naquele ano. Em termos comparativos, trata-se de uma das trajetórias mais agressivas de endividamento desde a promulgação da Constituição de 1988, embora ainda aquém dos patamares observados em países desenvolvidos altamente alavancados. A diferença reside, como lembram os economistas, na taxa de juros: um Brasil com Selic de dois dígitos sustenta com muito mais dificuldade uma dívida de 86% do PIB do que um Japão com juros zero e dívida superior a 200%.
O pano de fundo é um conjunto de escolhas deliberadas: expansão de programas sociais, reajuste real do salário mínimo, investimentos em infraestrutura via PAC e renúncias tributárias seletivas para setores considerados estratégicos. A aposta do governo é que esses gastos, ao estimularem o crescimento e a formalização, ampliarão a base tributária e permitirão estabilizar a relação dívida/PIB em horizonte de médio prazo. O ceticismo de parte do mercado financeiro, por sua vez, reside na percepção de que o controle de despesas obrigatórias — previdência, funcionalismo, benefícios vinculados ao salário mínimo — permanece insuficiente para acomodar o aumento de gastos discricionários sem tensionar o arcabouço fiscal recentemente aprovado. Entre a narrativa de responsabilidade social e o receio de descontrole fiscal, a credibilidade do governo dependerá muito menos de discursos e muito mais da capacidade de, nos próximos dois anos, combinar entrega de políticas públicas com sinais concretos de moderação de gastos.
Em tempos em que a economia se converte em plebiscito permanente sobre o futuro, o Portal INFOCO, com suporte da HostingPress Agência de Notícias, mantém-se como espaço privilegiado para o leitor que deseja compreender, e não apenas temer, os números da dívida pública.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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