Com as eleições de outubro de 2026 no horizonte e a popularidade em queda persistente, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estruturou um vasto conjunto de programas sociais, renúncias fiscais e linhas de crédito subsidiado cujo impacto acumulado já ultrapassa R$ 403,2 bilhões em gastos projetados para o ano. O pacote — denominado por analistas, adversários políticos e até pela imprensa especializada como um “pacote de benesses” ou “bondades” eleitorais — abrange desde a população mais vulnerável até segmentos da classe média e do setor empresarial, numa estratégia de amplo espectro que busca reverter índices de aprovação que não param de recuar. A manobra é antiga no repertório da política brasileira, mas a escala com que se apresenta em 2026 é, por si mesma, reveladora das dificuldades que o governo enfrenta para converter realizações concretas em capital político.
O carro-chefe da estratégia petista é a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para trabalhadores que recebem até R$ 5.000 mensais, medida que entrou em vigor em fevereiro de 2026 e que também introduziu uma alíquota reduzida para rendimentos entre R$ 5.001 e R$ 7.350. A promessa foi feita durante a campanha de 2022 e sua concretização foi amplamente divulgada pelo governo como prova de compromisso com a classe média. Segundo projeções do BTG Pactual e da ARX Investimentos, a renúncia fiscal decorrente da medida está estimada entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões por ano, beneficiando cerca de 15 a 16 milhões de contribuintes. Lula chegou a compará-la, em discurso público, a um “14º salário” para os trabalhadores contemplados. Apesar do entusiasmo presidencial, a medida não produziu o efeito imediato de popularidade esperado: levantamento do instituto PoderData divulgado em 25 de março de 2026 mostrou que a taxa de desaprovação do governo subiu para 61% — o maior patamar desde março de 2024 —, enquanto 51% dos eleitores avaliavam o trabalho de Lula como “ruim” ou “péssimo”.
A espinha dorsal dos gastos diretos continua sendo o Bolsa Família, com orçamento de R$ 158,6 bilhões reservados para 2026, programa que Lula reabilitou e ampliou logo no início do terceiro mandato, após sua extinção formal no governo anterior. O Farmácia Popular, outra marca dos primeiros mandatos petistas, conta com dotação de R$ 6 bilhões e segue funcionando como instrumento de acesso a medicamentos para a população de baixa renda. O Pé-de-Meia, programa de poupança vinculada à frequência escolar para estudantes do ensino médio, foi incluído formalmente no Orçamento de 2026 com custo de R$ 12 bilhões, após o Tribunal de Contas da União ter condenado a prática anterior de operar fora das regras orçamentárias. Também figuram no pacote o Gás do Povo, com R$ 4,7 bilhões reservados, e o Luz do Povo, cujo alcance deve crescer de 16,7 milhões para 20,9 milhões de residências ao longo do ano, garantindo gratuidade na conta de energia para famílias com renda de até meio salário mínimo per capita e consumo mensal de até 80 kWh.
Para a classe média, o governo aposta em programas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida — cujo teto foi ampliado para acomodar famílias de maior renda — e o Reforma Casa Brasil, voltado a financiar melhorias residenciais. Na frente do crédito, destaca-se o Crédito do Trabalhador, linha consignada criada em março de 2025 que permite a trabalhadores formais contrair empréstimos usando até 10% do saldo do FGTS como garantia, reduzindo o risco de inadimplência e, consequentemente, os juros cobrados. As operações do BNDES, banco de desenvolvimento ligado ao governo federal, somaram R$ 169,7 bilhões em 2025 — alta de 27% em relação a 2024 — e a expectativa é que o volume ultrapasse R$ 200 bilhões em 2026. Para os empresários, o governo oferece ainda programas como a Nova Indústria Brasil e o Brasil Soberano, voltado a apoiar exportadores afetados pelo tarifaço anunciado pelos Estados Unidos em 2025.
O banco BTG Pactual, em relatório distribuído a clientes em janeiro de 2026, calculou que um conjunto de oito programas recém-criados deve injetar R$ 88 bilhões adicionais na economia até o fim do ano. A instituição financeira estima que o impulso contribuirá para um crescimento de 1,7% do PIB — número modesto diante dos 2,2% registrados em 2025, mas que o governo aposta em apresentar como sinal de estabilidade. A mesma análise adverte, contudo, que o impulso fiscal resultante dessas medidas tende a pressionar a inflação e dificultar o controle das finanças públicas. A taxa Selic, que subiu de 10,50% ao ano em meados de 2024 para 15% ao ano no pico de 2025 — o maior patamar em duas décadas —, recuou modestamente para 14,75% ao ano na última reunião do Comitê de Política Monetária, mas segue em patamar historicamente elevado, o que eleva o custo do serviço da dívida pública e estreita o espaço fiscal disponível. O próprio BTG projeta crescimento da dívida bruta para 82,1% do PIB em dezembro de 2026, acréscimo de 10,4 pontos percentuais ao longo do mandato atual.
O dilema que se apresenta ao governo é, portanto, de natureza estrutural: como financiar um arsenal eleitoral desta magnitude sem comprometer os fundamentos do arcabouço fiscal adotado em 2023? A resposta tentada pelo Executivo, até aqui, tem sido uma combinação de renúncias parcialmente compensadas por novas fontes de receita — como a proposta de taxação de rendas mais altas para compensar a isenção do IR — e renegociações orçamentárias que demandam aprovação legislativa. A derrota na Câmara dos Deputados da medida provisória que buscava ampliar a incidência do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que deveria injetar R$ 20,9 bilhões no caixa do governo, escancarou a fragilidade dessa engenharia. O cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, ponderou que as maiores forças do Legislativo estão orientadas a candidaturas de oposição, o que dificulta aprovação de medidas que aumentem tributos — condição necessária para bancar parte das benesses prometidas.
O impacto político dessas medidas também está longe de ser automático. Uma das lições mais duras que o governo Lula absorveu nos primeiros meses de 2026 é que a escala do investimento, por si só, não garante retorno eleitoral. Pesquisa da Quaest de março de 2026 revelou que Lula e Flávio Bolsonaro aparecem empatados em um eventual segundo turno, com 41% de intenção de votos cada. Mais sintomático ainda é o recuo de apoio entre exatamente o segmento beneficiado pela isenção do IR: entre eleitores que ganham de dois a cinco salários mínimos, a aprovação de Lula caiu de 46% em agosto de 2025 para 38% em março de 2026. Aliados do governo reconhecem, em conversas reservadas, que o principal obstáculo não é a insuficiência das medidas, mas a dificuldade de comunicar realizações a um eleitorado que percebe o governo como desgastado e sem novidade.
Essa tensão entre investimento maciço e retorno eleitoral incerto ilumina uma questão mais profunda sobre a política econômica em democracias contemporâneas: o chamado “voto econômico” — a tendência do eleitor a recompensar governos que melhoram sua situação financeira — tem se mostrado cada vez menos previsível e menos automaticamente conversível em intenção de voto. Analistas apontam que, num ambiente de polarização intensa, desconfiança institucional e saturação informacional, a percepção de desempenho governamental é filtrada por lentes identitárias que a transferência de renda não consegue deslocar com facilidade. O resultado é que governos que apostam excessivamente no gasto pré-eleitoral como substituto de reformas estruturais correm o risco de colher o pior dos dois mundos: o ônus fiscal sem o benefício político. Se esse será o destino do pacote de Lula, apenas as urnas de outubro saberão responder.
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Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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