Mesmo após a criminalização do racismo pela Constituição Federal de 1988, indicadores sociais mostram que a desigualdade racial permanece no Brasil.

Vinicius Mororó – Jornalista Atípico

O racismo virou crime, mas a desigualdade permaneceu

Desde a promulgação da Constituição de 1988, o racismo passou a ser crime inafiançável e imprescritível no Brasil.

Lei 7.716/1989 regulamentou as condutas discriminatórias.

Em 2023, o Congresso Nacional equiparou a injúria racial ao crime de racismo, ampliando a responsabilização penal.

A legislação avançou. A questão é se a realidade social acompanhou esse avanço.

O que os dados mostram

Dados oficiais do IBGE indicam que pessoas pretas e pardas recebem, em média, salários menores do que pessoas brancos no Brasil e enfrentam maiores taxas de desemprego.

Estudos do INEP mostram que a presença de estudantes negros nas universidades públicas cresceu após a implementação da Lei 12.711/2012, que estabeleceu reserva de vagas com critérios de escola pública, renda e raça.

Antes da política de cotas, as universidades federais eram majoritariamente compostas por estudantes brancos. Após sua aplicação, o perfil racial começou a se aproximar da composição da população brasileira.

A política foi criada como instrumento de correção de desigualdades históricas no acesso à educação. Ainda assim, o debate público frequentemente reduz essa ampliação de acesso à ideia simplificada de privilégio indevido.

Racismo estrutural não é ofensa explícita

O conceito de racismo estrutural, difundido por autores como Silvio Almeida, parte de uma premissa clara: desigualdade racial não se explica apenas por atitudes individuais, mas por estruturas históricas que moldam oportunidades.

Não se trata apenas de xingamentos ou discriminação aberta.

Trata-se de padrões persistentes.

Quando determinados grupos aparecem com maior frequência nos piores indicadores de renda, escolaridade e violência, não estamos diante de casos isolados. Estamos diante de um padrão.

O elogio que também delimita

Há manifestações mais sutis.

Frases como “é muito forte”, “é excelente no esporte” ou “é bom de serviço” podem soar positivas. No entanto, quando o reconhecimento social se concentra repetidamente em atributos físicos ou funções historicamente associadas ao trabalho braçal, é legítimo questionar o enquadramento.

Não se trata de negar talentos individuais.

Trata-se de observar por que certos talentos são automaticamente presumidos, enquanto outros como capacidade intelectual, liderança acadêmica ou autoridade técnica ainda causam surpresa.

O racismo contemporâneo raramente se apresenta como hostilidade declarada.
Ele pode surgir como expectativa limitada.

A herança histórica

O Brasil foi o último país do Ocidente a abolir oficialmente a escravidão, em 1888.

Após a abolição, não houve política ampla e estruturada de inclusão econômica da população negra recém-liberta.

A desigualdade herdada daquele período não desaparece por decreto constitucional.

Ela se manifesta no acesso desigual a oportunidades, na representação política limitada, na diferença de renda e na concentração de vulnerabilidades sociais.

Lei e realidade

A criminalização do racismo representou um marco civilizatório.

Mas leis punem condutas. Elas não reestruturam automaticamente padrões históricos.

A permanência de desigualdades raciais, mesmo após avanços legais, sustenta o debate sobre racismo estrutural no Brasil contemporâneo.

A discussão não se resume a intenções individuais.
Ela envolve resultados sociais mensuráveis.

A pergunta necessária

Se a legislação evoluiu, mas os indicadores continuam revelando disparidades,o desafio está onde?

Reconhecer o problema não significa acusar indivíduos.
Significa encarar dados, história e estrutura.

A desigualdade racial no Brasil não se sustenta apenas por atitudes explícitas.
Ela também se mantém por padrões naturalizados.

O debate é desconfortável.
Mas ignorá-lo não altera os números.

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Jornalista com especialização em Jornalismo Político e Consultoria e Certificação Ambiental, além de formação concluída em Jornalismo Investigativo pela Abraji. Atualmente, continua seus estudos em comunicação e crises públicas e privadas, ampliando sua atuação em áreas estratégicas da informação. Com uma escrita analítica, ética e profundamente conectada à realidade, constrói narrativas que vão além do óbvio, explorando os bastidores do poder e os impactos sociais da informação. Vinicius Mororó – Jornalista Atípico

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