A segurança pública consolidou-se, de acordo com os dados mais recentes da pesquisa Quaest divulgada nesta semana, como a principal preocupação dos brasileiros em 2026, ultrapassando a inflação, o desemprego e a saúde numa hierarquia de angústias coletivas que reflete a experiência cotidiana de uma população que, em proporção crescente, vive sob a sombra do crime organizado, da violência doméstica e da insegurança urbana que afeta de maneira transversal todas as classes sociais e todas as regiões do país. Os números do Atlas da Violência, publicado pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, situam o Brasil entre os países com maiores taxas de homicídio do mundo: são mais de 40.000 assassinatos por ano, concentrados de forma avassaladora nas populações jovens, negras e periféricas, mas cujos tentáculos de medo e de restrição de mobilidade alcançam todos os estratos da sociedade brasileira.
O paradoxo que esta conjuntura apresenta ao sistema político é de difícil equacionamento: a segurança pública no Brasil é essencialmente uma atribuição dos governos estaduais, que controlam as polícias civil e militar e os sistemas prisionais, enquanto a União detém a Polícia Federal, a PRF e a legislação penal. Nenhum candidato a presidente pode, portanto, prometer resolver o problema da violência com os instrumentos que o cargo efetivamente confere, mas todos o fazem, porque o eleitor o exige, criando um ciclo de expectativas infundadas que alimenta a frustração e o descredito nas instituições após cada eleição. A Operação Narcofluxo deflagrada nesta manhã, com a prisão de MC Ryan SP e Poze do Rodo e o desmantelamento de uma organização de lavagem de capitais de R$ 1,6 bilhão, é precisamente o tipo de ação que a opinião pública demanda — mas que, por mais espetacular que seja em sua dimensão simbólica, não resolve as causas estruturais que reproduzem a violência numa escala que nenhuma operação policial, por mais eficaz, consegue sozinha interromper.
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Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
Portal INFOCO
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